
O plano político de Gilberto Kassab é claro: ampliar o tamanho e a capilaridade do PSD, consolidar a máquina municipal e preparar o caminho para disputar o Governo do Estado em 2030. Não se trata de aventura. Trata-se de estratégia de longo prazo — método, ocupação territorial e construção paciente de poder.
Hoje, o Partido Social Democrático é uma das maiores forças municipais do país e detém a maioria dos prefeitos em São Paulo. Esse ativo político não é retórico; é estrutural. Prefeitos são base eleitoral, articulação regional e musculatura institucional. Kassab construiu isso com pragmatismo.
O passo seguinte depende de um fator decisivo: Tarcísio de Freitas. Se aceitar a composição e ambos vencerem a eleição, o Estado poderá assistir a um movimento já testado na capital paulista — uma aliança funcional, onde o vice deixa de ser figurante e passa a ser sucessor natural. Em São Paulo, esse modelo já deu certo.
A história oferece paralelo. Orestes Quércia fez algo semelhante com Franco Montoro. O Partido da Social Democracia Brasileira de Montoro não queria Quércia. Mas Quércia tinha votos. Impôs-se politicamente. Foi um vice eficiente — e depois governador controverso. Seu governo deixou marcas negativas: endividamento elevado, cofres pressionados e a ascensão de Luiz Antônio Fleury Filho, herdeiro político que aprofundou crises fiscais.
O período exigiu reconstrução institucional, que veio com Mário Covas. A reestruturação financeira do Estado incluiu medidas duras e culminou na privatização do Banco do Estado de São Paulo, símbolo de um ciclo que se encerrava.
A comparação é inevitável, mas as diferenças também são. Kassab não é Quércia. Seu perfil é administrativo, negociador e moderado. Ao longo de sua trajetória, demonstrou responsabilidade fiscal e capacidade de articulação suprapartidária.
Para Tarcísio, a equação é estratégica: ter Kassab como aliado pode significar estabilidade política, base ampliada no interior e um sucessor viável. Em política, sucessão mal planejada costuma custar caro. Quando bem desenhada, garante continuidade e previsibilidade.
2030 começa agora. O tabuleiro está sendo montado. A pergunta não é se Kassab quer — isso é evidente. A questão é se a aliança será formalizada e se os votos confirmarão o projeto.
Se a estratégia for exitosa, São Paulo poderá viver um ciclo de continuidade institucional. Se falhar, será apenas mais um capítulo da eterna disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.
O jogo está em curso.

