
Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta talvez o maior dilema de sua longa trajetória política: insistir ou não em disputar um quarto mandato presidencial. Depois de décadas no centro da vida nacional, o presidente parece descobrir que o tempo cobra contas até dos líderes mais populares. O carisma já não basta, a retórica perdeu brilho e as fórmulas antigas mostram sinais de fadiga.
As medidas de viés eleitoral, embaladas como proteção social, não têm produzido o efeito esperado. O humor popular não melhora na velocidade desejada, a rejeição cresce e a sensação de desgaste se espalha. O eleitorado, mais desconfiado e fragmentado, já não responde como em outros tempos. O lulismo encontra limites que antes parecia não conhecer.
Enquanto isso, adversários ganham musculatura política. Uns se reorganizam, outros surgem como alternativa ao cansaço nacional com velhos protagonistas. O segundo turno, terreno historicamente favorável a Lula, deixou de ser porto seguro. Hoje, já se fala em disputa aberta, imprevisível e perigosa para quem sempre se habituou a vencer.
Há ainda a dimensão simbólica. Aos 81 anos em 2027, Lula precisará decidir se deseja encerrar a carreira como estadista aposentado ou como candidato derrotado nas urnas. São destinos muito diferentes. O primeiro preserva a narrativa histórica construída ao longo de décadas. O segundo pode reduzir uma biografia monumental a um epílogo melancólico.
Seu legado é controverso. Liderou o país direta ou indiretamente por quase vinte anos de influência dominante. Houve avanços sociais reconhecidos, mas também crises fiscais, polarização crescente, escândalos de corrupção ao redor do poder e uma cultura política baseada na ocupação de estruturas do Estado. O país continuou grande em promessas e modesto em resultados.
Também pesa a herança institucional. Ao fortalecer atores que imaginava aliados permanentes, ajudou a criar centros de poder hoje autônomos e muitas vezes incontornáveis. A velha máxima continua atual: quem cria corvos precisa lembrar que eles aprendem a voar sozinhos.
Talvez tenha chegado a hora de Lula compreender que nem toda retirada é derrota. Às vezes, sair de cena no momento certo exige mais grandeza do que insistir em permanecer nela. O poder raramente avisa quando terminou. Mas a história, implacável, sempre registra quando alguém demorou a perceber.
