6 x1 ou 5x 2 ou 4 x3. No final porque governo tem que administrar horas trabalhadas?

O debate sobre o fim da escala 6×1 transformou-se em mais uma vitrine de populismo eleitoral travestido de justiça social. Defender a redução da jornada sem discutir produtividade, competitividade, impacto sobre custos e capacidade de pagamento das empresas é vender ilusão em troca de votos. É tentar ganhar eleição com o bolso do empregador ou com o desemprego do trabalhador.

O lucro, gostem ou não, comporta-se como a água: procura sempre o caminho de menor resistência. Se o ambiente econômico se torna hostil, o capital reduz investimentos, automatiza operações, terceiriza atividades ou simplesmente migra para mercados mais competitivos. Não existe decreto capaz de abolir a lógica econômica.

Mais grave ainda é querer impor uma mudança estrutural dessa magnitude por emenda constitucional, sem debate técnico consistente, sem estudos profundos de impacto e praticamente sem participação efetiva da sociedade produtiva. Quantas audiências públicas o Congresso realizou? Quais setores econômicos foram ouvidos? Onde estão as simulações sobre inflação, desemprego, informalidade e produtividade?

O que parte do Congresso e o governo Lula desejam é capturar um tema popular para 2026. É política eleitoral em estado bruto. Um “topa tudo” por dividendos políticos imediatos. Felizmente, ainda existe o Senado, que pode funcionar como instância moderadora dessa excitação populista. O problema é que haverá renovação de dois terços da Casa, tornando difícil resistir ao apelo fácil de uma proposta emocionalmente sedutora.

A população quer arriscar. “Se colar, colou.” Esta infelizmente é uma marca cultural brasileira: acreditar em soluções mágicas sem avaliar consequências econômicas de longo prazo. Depois, quando os preços aumentarem, o desemprego crescer, os serviços públicos piorarem e a economia perder dinamismo, os mesmos políticos serão acusados de corrupção, incompetência e irresponsabilidade fiscal.

O país precisa entender uma verdade simples: riqueza não nasce do Estado. Ela nasce da capacidade produtiva da sociedade. São as empresas, os empreendedores, os trabalhadores e os investimentos privados que geram renda, pagam salários, recolhem impostos e sustentam toda a máquina pública.

As forças produtivas devem definir os modelos de trabalho, e não a vontade eleitoral do Estado. Se a sociedade deseja produtos mais baratos, melhores salários e mais qualidade de vida, será necessário ampliar produtividade, concorrência, eficiência e qualificação profissional — não reduzir competitividade artificialmente.

A comparação internacional expõe ainda mais a fragilidade do debate brasileiro. A China tornou-se a fábrica do mundo operando jornadas intensas, alta taxa de poupança e investimentos gigantescos em infraestrutura e produção. O país poupa cerca de 30% da renda nacional e investe perto de 25% do PIB em infraestrutura e expansão econômica. Nos Estados Unidos, apesar da existência de salário mínimo e legislação trabalhista, há enorme flexibilidade na relação entre capital e trabalho.

O Brasil quer ser a França sem possuir a produtividade francesa, a educação francesa, a infraestrutura francesa ou a renda per capita francesa. Queremos importar benefícios de países ricos sem antes construir riqueza.

A consequência costuma ser previsível: menos competitividade, mais informalidade, mais automação substituindo mão de obra e crescimento econômico menor. No fim, o povo acredita no discurso que lhe convém ouvir. Depois, paga a conta.

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Pinterest
últimas no jornal o democrático
agenda regional

Próximos eventos