O caso Banco Master e a corrosão silenciosa das instituições

O Brasil assiste, mais uma vez, a um processo em que decisões técnicas do Estado são submetidas a pressões informais, interesses cruzados e manobras de bastidor. O episódio da liquidação do Banco Master expôs não apenas um banco inviável, mas uma sequência de comportamentos que colocam em risco a credibilidade de instituições centrais da República.

O Banco Central cumpriu seu papel. Liquidou a instituição no dia 25 de novembro do ano passado, com base em critérios técnicos e legais. A partir daí, iniciou-se uma sucessão de interferências que não encontra respaldo no Estado de Direito.

Ministro do Supremo Tribunal Federal telefonou reiteradas vezes ao presidente do Banco Central e reuniu-se com ele para tratar do caso. Posteriormente, veio a público que sua esposa e sócios mantinham contrato milionário com o banco liquidado. O conflito de interesses é evidente. Diante da resistência técnica do BC, o foco deslocou-se: servidores do Banco Central e da Polícia Federal passaram a ser ameaçados com investigações criminais por supostos vazamentos.

Em seguida, outro ministro do STF avocou o processo, impôs sigilo absoluto e paralisou qualquer avanço investigativo. A decisão ocorreu logo após viagem internacional em aeronave privada de empresário diretamente relacionado ao banco e acompanhada por seu advogado. Não se trata de ilação, mas de fatos públicos. Por duas semanas, o processo ficou congelado, blindado da sociedade e dos órgãos de controle.

A crise se aprofundou quando o Tribunal de Contas da União entrou em cena. Um ministro politicamente alinhado a grupos com perdas financeiras diretas na liquidação instaurou sindicância, abrindo conflito institucional com o Banco Central. A Polícia Federal foi afastada. O processo estacionou. Nenhuma autoridade se dispôs a impor limites claros. O sistema travou.

O Ministério Público, provocado por parlamentares, poderia ter exercido papel moderador. Preferiu alinhar-se à decisão que impunha sigilo e suspensão. A Procuradoria-Geral da República perdeu a oportunidade de atuar como guardiã do interesse público.

Como se não bastasse, surgiram informações sobre possível participação societária oculta do ministro relator em empreendimento bilionário no Paraná. A explicação apresentada — patrimônio registrado em nome de familiar de vida modesta — apenas agravou o desgaste. A imagem institucional do Supremo sofreu novo abalo.

O resultado previsível é o recuo. Isolado, o ministro tende a abandonar o caso. O processo segue para instâncias inferiores, onde poderá ser diluído no tempo. Caso contrário, o escândalo retorna ao STF com potencial destrutivo ainda maior, atingindo outros ministros.

Enquanto isso, o custo é socializado. O Fundo Garantidor de Créditos antecipa R$ 46 bilhões para proteger depositantes, em um processo de liquidação que pode levar mais de uma década e envolve bilhões em créditos de autenticidade questionável.

O saldo é claro. Saem atingidos o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal de Contas da União, a Procuradoria-Geral da República e as presidências da Câmara e do Senado, que assistiram passivamente à degradação do processo decisório.

Resistem, até aqui, as instituições técnicas: o Banco Central, o Fundo Garantidor de Créditos e a Polícia Federal.

O episódio deixa uma lição incômoda: quando a autoridade se confunde com interesse privado e o sigilo substitui a transparência, o dano não é episódico — é estrutural. A erosão institucional não acontece em golpes abruptos, mas em concessões sucessivas. E o preço, como sempre, recai sobre a confiança pública.

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