Paz no Irã. 60 dias de trégua. Ormuz aberto.

Estados Unidos e Irã caminham para a assinatura de um cessar-fogo de 60 dias, acompanhado da reabertura do Estreito de Ormuz e da normalização parcial do fluxo de petróleo na região. Washington busca reduzir as tensões e restabelecer alguma estabilidade no mercado internacional de energia.

Israel, entretanto, não se manifestou favoravelmente ao acordo. A razão parece evidente: os objetivos estratégicos israelenses vão além da interrupção temporária das hostilidades. O governo de Jerusalém dificilmente aceitará uma solução que preserve a capacidade militar do Hezbollah ou permita ao Irã manter, ainda que parcialmente, sua infraestrutura nuclear.

A trégua pode ser americana, mas dificilmente será israelense. Para Israel, o problema central não é apenas o conflito atual, mas a possibilidade de que o Irã continue perseguindo capacidade nuclear militar. Na visão israelense, um Irã dotado de armas atômicas alteraria profundamente o equilíbrio de forças no Oriente Médio e colocaria a existência do Estado judeu sob ameaça permanente.

Por essa razão, a probabilidade de fracasso do acordo é elevada. Israel tende a prosseguir com operações destinadas a reduzir a capacidade operacional do Hezbollah e a neutralizar instalações ligadas ao enriquecimento de urânio. Com trégua ou sem trégua, a prioridade continuará sendo a eliminação das ameaças consideradas existenciais.

Outro aspecto relevante é a crescente pressão sobre o regime dos aiatolás. Grupos oposicionistas internos poderão sentir-se estimulados diante do desgaste econômico e militar provocado pelos confrontos. Há analistas que entendem que o objetivo final de Israel não se limita ao campo militar, mas inclui enfraquecer as bases de sustentação da autocracia iraniana.

Os danos econômicos já são significativos. A reconstrução de instalações militares, industriais e de infraestrutura exigirá anos. Setores estratégicos, como o agropecuário, o químico e o energético, sofrerão os efeitos diretos da destruição e das restrições comerciais decorrentes do conflito.

Os críticos de Israel e dos Estados Unidos classificam a ofensiva como desnecessária e denunciam seus custos humanos e materiais. Seus defensores sustentam que a ação era inevitável diante do avanço do programa nuclear iraniano e da atuação de organizações armadas apoiadas por Teerã.

O fato é que, para Israel, o que está em jogo não é apenas uma disputa regional, mas sua própria capacidade de garantir a sobrevivência e a autonomia nacional. Nenhum governo israelense abrirá mão do princípio da autoproteção. A percepção de que o Irã conta com apoio político de grandes potências, como Rússia e China, não altera esse cálculo estratégico.

Por isso, ainda que a trégua venha a ser assinada, a paz duradoura permanece distante. O acordo pode interromper temporariamente os combates, mas dificilmente eliminará as causas profundas do conflito. Enquanto persistirem as divergências sobre o programa nuclear iraniano e o papel das forças aliadas de Teerã na região, o Oriente Médio continuará convivendo com uma paz precária e uma guerra apenas suspensa.

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Pinterest
últimas no jornal o democrático
agenda regional

Próximos eventos