
O Marco do Saneamento Básico promete a universalização da água tratada e do esgoto coletado até 2033. É uma promessa tecnicamente inviável e politicamente desonesta. Especialistas sabem. Gestores sabem. Parlamentares sabem. Fingem não saber.
Não há punição para dirigentes relapsos. Não há sanção efetiva para prefeitos, governadores ou dirigentes de estatais que descumprem metas. O atraso real não será de alguns anos, mas de duas ou três décadas. Os investimentos necessários não acontecem, os cronogramas são irreais e o país aceita a mentira como política pública.
Enquanto isso, a população adoece. Crianças convivem com esgoto a céu aberto. Hospitais tratam doenças que não deveriam existir no século XXI. E não há indignação coletiva. Não há pressão social organizada. O sofrimento virou rotina.
O Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas não alocam orçamento compatível com a meta que eles próprios aprovaram. Criam leis sem dinheiro, metas sem meios, prazos sem responsabilidade. O Tribunal de Contas pode apontar falhas, mas não tem instrumentos para impor correções estruturais. A lei não pune quem não cumpre. Os tribunais, tampouco.
A Constituição empurrou para os prefeitos a responsabilidade pela universalização do saneamento, pela qualidade do ensino básico, pelo fim dos lixões e pela implantação de aterros sanitários. É uma lista pesada demais para gestões frágeis e, muitas vezes, incompetentes. Os prefeitos prevaricam. Os estados fingem não ver. A União se faz surda.
E a população? Sofre em silêncio. Não por estar sob a mira de fuzis, mas por estar politicamente anestesiada. Somos um país despolitizado. Elegemos mal. Repetidamente. Escolhemos os piores e depois naturalizamos o fracasso.
As lideranças civis preferem debater abstrações, slogans fáceis ou a retórica da repressão, enquanto ignoram o básico: água limpa, esgoto tratado, saúde preventiva, dignidade mínima. Não falta diagnóstico. Falta caráter institucional. Falta cobrança. Falta vergonha.
O saneamento no Brasil não é um problema técnico. É um retrato da nossa falência política.

