
A entrada de Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab na sucessão presidencial de 2026 inaugura um novo capítulo da política brasileira. Pela primeira vez em muitos anos, uma chapa reúne dois políticos experientes, administradores testados e conhecedores do funcionamento do Estado para desafiar a polarização que domina o país desde 2018.
Ronaldo Caiado retorna à disputa presidencial 37 anos depois de sua primeira candidatura, em 1989. Naquele momento enfrentou candidatos como Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello. Desde então, acumulou experiência parlamentar e consolidou-se como uma das principais lideranças conservadoras do país.
Como governador de Goiás por dois mandatos, construiu sua principal credencial eleitoral. O Estado passou a figurar entre as referências nacionais em segurança pública, ampliou investimentos, fortaleceu a arrecadação, reduziu o endividamento e reorganizou suas finanças. Enquanto diversos governos estaduais convivem com déficits permanentes, Goiás encerrou um ciclo de recuperação administrativa que hoje serve como vitrine para a candidatura presidencial.
Sua promessa de cumprir apenas um mandato também merece atenção. Num ambiente político em que a reeleição frequentemente passa a orientar as decisões de governo desde o primeiro dia de gestão, Caiado afirma que pretende realizar um trabalho de reconstrução institucional e administrativa, encerrando sua participação ao final de quatro anos. Se cumprirá essa promessa, somente o eleitor e a história poderão responder. Mas, ao menos, apresenta uma visão diferente daquela predominante na política brasileira.
A presença de Gilberto Kassab torna essa eleição ainda mais interessante.
Poucos políticos brasileiros possuem tamanho poder de articulação. Presidente nacional do PSD, ex-prefeito da maior cidade do país, ex-ministro e respeitado negociador, Kassab poderia perfeitamente disputar a Presidência da República. Não o fez.
A decisão revela que seu objetivo maior continua sendo preservar a musculatura política do PSD e suas alianças estaduais. O partido governa, participa ou apoia administrações de diferentes correntes ideológicas, inclusive em composição com o PT em alguns estados. Essa flexibilidade fortaleceu o PSD eleitoralmente, mas agora impõe um enorme desafio.
Kassab terá de demonstrar que entrou na disputa para vencer a eleição — e não apenas para marcar presença ou preservar espaços políticos. Sua candidatura será observada como um teste de coerência. O eleitor precisará saber se a chapa representa uma verdadeira alternativa de governo ou apenas mais um arranjo partidário típico da política brasileira.
O surgimento da chapa Caiado-Kassab também desmonta um discurso repetido à exaustão: o de que o Brasil estaria condenado a escolher apenas entre Lula e Bolsonaro.
Não está.
Existem outras lideranças, outros projetos e outras experiências administrativas capazes de disputar o comando do país. O problema é que essas candidaturas ainda falam pouco ao eleitor. Enquanto a polarização mobiliza emoções, as alternativas permanecem excessivamente discretas. Quem deseja romper esse ciclo precisa ocupar espaço, apresentar propostas concretas, participar do debate público e enfrentar o confronto de ideias.
Nenhum candidato vencerá apenas exibindo currículo.
A eleição exigirá projetos consistentes para enfrentar o baixo crescimento econômico, a deterioração das contas públicas, a violência organizada, a perda de competitividade da indústria, a reforma do Estado e a baixa qualidade dos serviços públicos.
As pesquisas mostram que Luiz Inácio Lula da Silva mantém um núcleo eleitoral sólido. Da mesma forma, o eleitorado identificado com o bolsonarismo continua expressivo. A disputa, entretanto, será decidida por milhões de brasileiros que não desejam permanecer prisioneiros dessa divisão permanente.
É justamente aí que Caiado e Kassab serão colocados à prova.
Não basta afirmar que existe uma terceira via.
É preciso convencer o país de que ela existe, que tem competência para governar e, sobretudo, que possui coragem para enfrentar os problemas nacionais sem se esconder atrás da polarização que há anos paralisa o debate político brasileiro.


