
Os juros elevados no Brasil não existem apenas por decisão isolada do Banco Central. Eles são consequência de um conjunto de distorções que mantém a inflação pressionada e dificulta sua convergência para a meta oficial, hoje fixada em 3% ao ano, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
O primeiro fator é fiscal. Quando o governo gasta de forma persistente acima da sua capacidade de arrecadação, aumenta a percepção de risco, pressiona as expectativas de inflação e obriga a política monetária a ser mais dura. Sem um superávit primário robusto e confiável, a Selic precisa carregar sozinha parte do esforço de estabilização.
O segundo fator é a existência de grandes bolsões de crédito subsidiado ou direcionado. Parte relevante da economia não sente integralmente o efeito da Selic, pois opera com taxas favorecidas. O crédito rural, habitacional e outras linhas direcionadas reduzem a potência da política monetária. Assim, para afetar a inflação, os juros precisam pesar ainda mais sobre quem está no crédito livre: empresas comuns, consumidores e setores sem proteção.
O terceiro fator é a indexação. Contratos, aluguéis, tarifas, serviços e reajustes salariais frequentemente carregam a inflação passada para o futuro. Essa memória inflacionária dificulta a desinflação. O Brasil já conheceu, na hiperinflação, o efeito destrutivo da indexação generalizada: ela transforma inflação passada em inflação futura.
O quarto fator é a concentração bancária e financeira. Poucos agentes concentram grande parte da intermediação do crédito. Isso reduz a concorrência, encarece empréstimos e amplia o poder dos rentistas. Com pouca competição, a queda da Selic demora mais a chegar ao tomador final.
As soluções exigem coragem política. O país precisa construir superávit primário consistente, reduzir subsídios de juros a setores econômicos privilegiados, desindexar contratos e reajustes futuros da inflação passada e abrir mais espaço para poupança externa, investimento produtivo e competição financeira.
Enquanto essas medidas não forem enfrentadas, a Selic continuará sendo o remédio mais forte aplicado sobre uma economia cheia de exceções, privilégios e mecanismos que neutralizam parte do próprio tratamento.

