
A isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 60 mil por ano não foi suficiente para melhorar, de forma perceptível, a vida da maior parte das pessoas enquadradas nessa faixa de renda. Por essa razão, a medida não proporcionou ao presidente Lula a vantagem eleitoral que muitos imaginavam.
A explicação está na realidade do cotidiano. O alívio tributário foi ofuscado por fatores econômicos que afetam diretamente o orçamento das famílias.
O primeiro deles é a crescente confusão entre aposta e investimento. A expansão das plataformas de apostas levou milhões de brasileiros a acreditar que estão investindo quando, na verdade, estão assumindo um risco cuja probabilidade estatística favorece a perda de dinheiro. A aposta retira recursos da renda familiar e reduz a capacidade de consumo e de formação de patrimônio.
O segundo fator é a inflação dos alimentos. Embora o governo tenha adotado medidas para conter o preço dos combustíveis, o custo da alimentação continuou pressionando o orçamento doméstico. O consumidor pode se beneficiar de uma gasolina mais barata, mas a maior parte da renda das famílias de baixa e média renda é destinada à compra de alimentos. Em termos práticos, as pessoas não comem gasolina nem etanol.
Por fim, permanece o elevado custo do crédito. Em muitas operações do comércio, os juros cobrados ao consumidor alcançam patamares próximos de 60% ao ano, tornando o financiamento de bens de consumo excessivamente oneroso. Nessas condições, cresce o endividamento, aumenta a inadimplência e diminui a capacidade de consumo das famílias.
A combinação entre perda de renda nas apostas, inflação dos alimentos e crédito caro anulou boa parte do efeito positivo esperado da isenção do Imposto de Renda. Na percepção do eleitor, o que prevalece não é o benefício anunciado pelo governo, mas a dificuldade de fazer o salário chegar ao fim do mês.

