
Governos não são avaliados apenas pelos discursos. Devem ser julgados pelas decisões que tomam, pelas prioridades que estabelecem e pelos resultados que produzem. É nesse conjunto que muitos enxergam uma agenda política do Partido dos Trabalhadores que nunca foi apresentada de forma explícita ao eleitor, mas que se revela pela sequência de atos de governo.
O primeiro elemento é a expansão permanente dos programas de transferência de renda. É inegável que esses programas reduziram a pobreza em diversos momentos. Também é fato que passaram a representar uma parcela importante da renda de milhões de famílias. A discussão política não é sobre sua existência, mas sobre sua utilização como instrumento de emancipação ou de dependência. Quando não há uma política consistente de geração de emprego, qualificação profissional e aumento da produtividade, cria-se uma relação de dependência permanente entre parte do eleitorado e o Estado.
O segundo aspecto é o aparelhamento institucional. A Constituição atribui ao Presidente da República a nomeação dos ministros do Supremo Tribunal Federal e de diversas autoridades da República. Trata-se de competência legítima. Entretanto, quando um mesmo grupo político permanece por longo período no poder, aumenta naturalmente sua influência sobre as instituições. Esse fenômeno ocorreu em diferentes governos brasileiros, mas alcança maior dimensão quando coincide com forte polarização política e com decisões judiciais que passam a interferir diretamente no ambiente eleitoral e na vida política nacional.
Outro fato objetivo é a tentativa recorrente de ampliar a regulação dos meios de comunicação e das plataformas digitais. Diversas propostas de controle ou regulação das redes sociais e do chamado “controle social da mídia” foram defendidas por integrantes do governo e do partido ao longo dos últimos anos. Seus defensores afirmam tratar-se do combate à desinformação; seus críticos entendem que tais iniciativas podem abrir espaço para restrições à liberdade de expressão.
No campo econômico, os sinais também preocupam. O Brasil mantém uma das maiores taxas reais de juros do mundo. O setor produtivo convive com elevada carga tributária, custo financeiro elevado e baixa capacidade de investimento. Enquanto aplicações financeiras oferecem elevada remuneração com risco reduzido, a indústria enfrenta margens estreitas, dificuldades de capital de giro e perda de competitividade. O resultado é conhecido: desindustrialização gradual, baixo crescimento da produtividade e redução da participação da indústria no Produto Interno Bruto.
O agronegócio tornou-se o principal sustentáculo da balança comercial brasileira, respondendo por aproximadamente um quinto do PIB e por cerca da metade das exportações nacionais. Qualquer política que aumente sua insegurança jurídica, reduza sua competitividade ou enfraqueça instituições estratégicas de pesquisa, como a EMBRAPA, produz efeitos sobre toda a economia nacional.
A recente crise comercial com os Estados Unidos ilustra outro problema. A investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) começou ainda em 2025 e discutiu temas como PIX, comércio digital, propriedade intelectual, etanol e decisões judiciais envolvendo plataformas digitais. Em maio de 2026, os presidentes Lula e Donald Trump anunciaram a criação de um grupo de negociação para tentar solucionar o impasse. Apesar disso, as tarifas de 25% foram posteriormente anunciadas e apenas parte dos produtos brasileiros foi excluída da medida. O governo brasileiro afirma ter negociado e contestado tecnicamente as acusações; seus críticos sustentam que a estratégia diplomática foi insuficiente para impedir o avanço das sanções. Ambas as posições decorrem de fatos públicos e documentados.
O conjunto desses acontecimentos permite uma interpretação política. Para seus apoiadores, trata-se da construção de um Estado mais presente e regulador. Para seus críticos, representa um processo gradual de concentração de poder político, econômico e institucional. A divergência está na interpretação. Os fatos, contudo, permanecem registrados.
Em uma democracia, o eleitor precisa decidir não apenas entre discursos, mas entre projetos de Estado. O debate deixa de ser partidário quando passa a envolver a independência das instituições, a liberdade econômica, a liberdade de expressão e os limites do poder governamental.

